|
A comunidade fortalece
A necessidade de sobrevivência e as dificuldades de se estabelecer conviveram desde o início com o intenso trabalho para organizar uma pequena kehilá, comunidade, e construir a sinagoga, que seria o centro da vida social e religiosa na nova terra. Antes da fundação da sinagoga, a comunidade se reunia para rezar em uma casa na Rua Oscar Horta, cedida por Menachem Politi, e em outra sala, na Rua Placidina, que logo se tornaram inadequadas para as tefilot, devido ao crescimento da comunidade.
Isaac Sayeg e Nassim Nigri decidiram então trabalhar pela construção de uma Sinagoga. Nassim Elias Nigri, representando o grupo, foi pedir à família Klabin a doação de um terreno, "pois a comunidade era muito pobre", contam Jamil e Salomão Sayeg. A doação foi feita, Nassim Elias Nigri tornou-se o primeiro presidente da sinagoga, enquanto Isaac Sayeg assumiu a função de tesoureiro.
A Sinagoga Israelita Brasileira foi fundada em 25 de julho de 1926, na Rua Odorico Mendes 174, bairro da Mooca. Depois de erguida a sinagoga, foram estabelecidos a Escola Talmud Tora, com o professor Isaac Hayon, que ensinava o hebraico e preparava os meninos para o bar-mitzvá, um centro de estudos para as crianças, o Grêmio Sinai, a Sociedade das Damas Israelitas Sefaradis e a participação na Chevra Kadisha, para que os rituais em caso de morte fossem de acordo com as tradições judaicas.
Nassim Elias Nigri foi sucedido na presidência por David Nigri, Assilan Meyer Nigri, Joseph Nigri, Moysés Dana, Jamil Sayeg e Salim Mansur. Essa sinagoga está ativa até hoje, e tem como presidente Jamil Sayeg.
Elias Politi lembra que as rezas na sinagoga eram iguais ao que se fazia em Sidon, mas poucos entendiam as rezas. Quem as conduzia na função de chazan eram Rahamim Nigri, Benjamin Cohen, Jacques Sarraf e Habib Memran.
Algumas diferenças na condução dos rituais litúrgicos levaram a fundação de uma outra sinagoga, na mesma rua Odorico Mendes, conta Alberto Srur. A pedra fundamental foi assentada em 7 de julho de 1935 e a sinagoga recebeu o nome de "Sociedade União Israelita Paulista". Esta sinagoga ficou conhecida como dos "Safadie", de Sfat, e a primeira dos "Sedanie", de Sidon. Alberto Srur tornou-se o tesoureiro desta nova sinagoga, que tinha como freqüentadores os Amar, os Calderón, os Derviche, os Efraim, os Mizrahi, Jacó Hazan e Aslan Cohen.
"Como o pessoal era muito unido, alguns, como Yontob, freqüentavam as duas indistintamente", conta Alberto Srur referindo a Yontob Zeitune. A família de Carolina Memran também freqüentava tanto a sinagoga dos "Safadie" como a dos "Sidanie".
Muitos imigrantes dedicaram-se ao trabalho comunitário, seja profissional, seja voluntariamente. Elias Mizrahi, contam seus filhos Helena, Jacob e Isaac, foi um grande ativista comunitário e trabalhou para coletar fundos para a construção da primeira sinagoga. Como lia bem hebraico, fazia os serviços religiosos da comunidade de Sfat, enquanto Benjamin Cohen fazia os serviços da comunidade de Sidon. Aos poucos Elias Mizrahi foi deixando a atividade comercial como vendedor ambulante para dedicar-se exclusivamente aos serviços comunitários. Preparava as crianças para o bar-mitzvá, foi chazan, consertava talit e tefilin e integrava a Chevra Kadisha, juntamente como Alberto Srur, Assilan Meyer Nigri e Marcos Simantob.
Maria Haski, esposa de Elias Mizrahi, era conhecida pela animação nas festas, cantando e dançando; fazia arranjos de casamento e reunia-se com as amigas após o Shabat para conversar e fumar narguile. Pertenciam ao grupo Badrie Zeitune, Consuelo Kalili, Virginia Politi, Rachel Sayeg, Julia Chatah, Carolina Memran e Sara Efraim, entre outras, em sua maioria nascidas em Beirute.
Yontob Zeitune aprendeu o ofício de mohel com o avô, ainda no Líbano, e aos 18 anos recebeu também o diploma de shochet. No Brasil exercia as duas funções no Rio e em São Paulo.
José Peres, um dos fundadores, dedicava todo o seu tempo, voluntariamente à sinagoga. Abria e fechava o prédio, buscava os membros da sinagoga para completar o minian e atraía os membros mais velhos da comunidade para jogar gamão.
As famílias em geral observavam as tradições judaicas. Mantinham o cashrut e falavam árabe em casa. Os filhos de várias famílias estudaram em escolas judaicas.
Assilan Meyer Nigri aprendeu a ler hebraico com o chazan Moisés Cohen, que era amigo do seu avô, para poder participar das cerimônias. O chazan tinha uma bela voz e ensinou-lhe as melodias típicas de Sidon. Também Assilan tinha uma bela voz e logo começaram a convidá-lo para cantar em festas e conduzir rezas.
Na década de 30 funcionou o Centro Recreativo Hebreu Brasileiro na rua Piratininga. Em 1942 foi fundado o Grêmio Sinai que funcionava no porão da Sinagoga da Rua Odorico Mendes. As principais atividades eram festas, jogos de futebol e até a edição de um jornal. Estes novos movimentos foram um dos maiores incentivadores da aproximação entre jovens sefaradim e ashkenazim através de suas atividades esportivas, recreativas e culturais.
Com o objetivo inicial de ajudar as crianças carentes, foi criada também a Sociedade das Damas Israelitas Sefaradis. Com o passar do tempo o leque de atividades assistenciais foi ampliado. A primeira presidente foi Marie Nigri e na década de 60 Jamile Derviche assumiu a presidência da Sociedade além de trabalhar para a WIZO por mais de 50 anos.
Para arrecadar fundos para a Sociedade das Damas e para as atividades das duas sinagogas da Rua Odorico Mendes, as mulheres organizavam chás, jantares, jogos e bazares. As líderes, conforme Linda Nigri, eram Marie Nigri, Eva Simantob, Laura Nigri, Sofia Mansur e Matilde Canpeas. Também participaram Badrie Politi Zeitune, Rebeca Simantob e Julia Sayeg Peres. |