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Jornada ao Brasil

A viagem ao Brasil ficou marcada por um duplo registro, de tragédia para alguns e de prazer para outros. De um lado tempestades com mortos, de outro, passeios agradáveis pelo navio.

O navio que trouxe Badrie Politi Zeitune e seu marido Jacob, quase afundou no meio da travessia. Ele parou por causa de uma tempestade e por pouco não foi a pique, conta Badrie. Ela conta ainda que seu marido pagou a passagem de muitas pessoas que não tinham dinheiro para a viagem e que, ao chegar ao Rio de Janeiro, o navio ficou parado por oito dias para desinfecção. Nesse mesmo navio vinha seu irmão, Gabriel Politi, que começou em alto mar o namoro com Virginia Abouhab, com quem se casaria.

"Muita gente morreu" durante a tempestade, conta Salomão Sayeg, lembrando a travessia de seu pai Isaac. Ele prometeu construir um mikve caso se salvasse da tempestade. O mikve foi construído na Rua Anna Néri, no bairro da Mooca, em São Paulo.
Quarenta e cinco dias no mar em condições péssimas. Foi este o tempo que Carlos Nigri permaneceu no navio entre Beirute em 1911 e a chegada ao Rio de Janeiro, conta a filha Linda Nigri.
A travessia no mar tem também registros alegres, principalmente na lembrança infantil de Carolina Memran, que veio com a mãe e a irmã. Durante os 22 dias de viagem, ela passeava pelo navio e lembra que a tripulação gostava dela, dando-lhe maças e ameixas. Em uma parada em Nápoles, a mãe desceu para comprar peixe e preparou-o na cozinha do navio. Aliás, para seguir a cashrut, a mãe cozinhou durante toda a viagem.

A viagem de Lazaro Setton teve, por sua vez, fatos inusitados e muita emoção e aventura. A família de Lazaro Setton veio sem a mãe, pelo porto de Marselha. "Quando o navio zarpou, eu me tranquei para evitar o choro, mas não me contive. Ao lado da amurada, estava um rapaz de descendência japonesa que, ao assistir aquela cena, me perguntou por que eu chorava e eu expliquei que chorava de saudades da minha mãe, que não nos acompanhava naquela aventura em terras desconhecidas, e não imaginava por quanto tempo ficaria sem ver o seu rosto e sentir o seu calor maternal".

Consuelo Setton Kalili conta que sua família trouxe no navio um colchão no qual colocaram mercadorias, tecidos, que foram depois vendidos pelo pai no Rio de Janeiro.
No caso de Faride Sayeg Cohen, seu irmão mais velho saíra de Beirute antes da Primeira Guerra, "pois a pobreza era generalizada". E depois, já casado, voltou em 1918 ao Líbano para buscar a mãe e os irmãos.

Encontrar um noivo ou noiva para casar foi outro motivo determinante que definiu a imigração de alguns membros da comunidade. Sarina Peres veio ao Brasil em 1926, com 13 anos, prometida para o seu primo Benjamin Peres, que já vivia no Brasil.

Jacob Simantob, pai de Rebeca Simantob, chegou ao Brasil em 1907, mas voltou para Sidon onde se casou com Habibe Hadid, tendo o casal emigrado para o Brasil em 1909.
As primeiras impressões dos imigrantes ao desembarcar no Brasil oscilaram entre a agradável surpresa e a decepção. "Havia gente civilizada e era muito quente", lembra Yontob Zeitune do momento do desembarque.

Lazaro Setton desembarcou com a família no Recife e depois seguiu viagem até a Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, onde os imigrantes eram registrados e vacinados. "No momento em que o conferente passou os olhos na minha documentação, seu semblante tornou-se diferente e após ler o meu nome em voz alta, Azour Azar Setton, falou: 'sai pra lá, azar, azar, eu não quero por perto'", conta Lazaro, que tentou entender o que estava acontecendo, mas os imigrantes recém chegados também não falavam o português. "Diante da minha surpresa, o conferente explicou-me que a palavra azar significava má sorte, não trazendo bons fluidos e me aconselhou a mudar de nome, já que eu seria alvo de várias chacotas, o que foi imediatamente aceito por mim. Hoje me chamo Lazaro Setton", completa ele.
Após os percalços da travessia e do desembarque, chegara o momento de os sonhos e os temores dos imigrantes se defrontarem com a realidade e as esperanças de um novo dia-a-dia. Chegara o momento de assegurar trabalho, estabelecer a família e recomeçar a vida comunitária. E foi o que os membros da comunidade que viria a fundar, anos mais tarde, a Congregação Monte Sinai se impuseram como primeira tarefa.

 

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