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Os primeiros anos no Brasil

"A Mooca era um lugar fantástico", conta Assilan Meyer Nigri, ao recordar-se do bairro, que se tornou o centro da vida dos imigrantes recém chegados a São Paulo. Elias Politi lembra que havia desavenças com os italianos e espanhóis, mas sem agressões físicas.

Nos anos 10 e 20, a Mooca era um típico bairro operário de São Paulo, onde, a exemplo do Brás, desenvolviam-se pequenas indústrias, especialmente de tecidos. Linda Nigri relata que os judeus da Mooca viviam em uma espécie de gueto, todos morando próximos, e não sentia qualquer discriminação quando os "brasileiros" os identificavam como judeus. Ela diz que quase não tinham contato com os ashkenazim. Assilan Meyer Nigri lembra que os contatos com os judeus ashkenazim eram pequenos e basicamente comercias.

Na memória de Salomão Sayeg, os judeus ashkenazim não os reconheciam como judeus e não havia contatos. Isso só mudou com o trabalho de Gabriel Kibrit, que os representava. Salomão também diz que nunca sentiu o anti-semitismo no país.

Os primeiros tempos dos recém chegados foram de trabalho duro. Gabriel Kibrit foi um dos primeiros, chegando a São Paulo em 1909, com apenas 16 anos de idade mas já formado em contabilidade em Beirute. Falava hebraico, árabe e francês, mas seu primeiro emprego foi de trabalhador braçal na construção da ponte do Rio Tamanduateí, trecho da Mooca, e também na Cervejaria Antártica. Depois foi para Campinas, onde trabalhou no comércio de móveis. Numa viagem a Rio Claro para participar de um minian, conheceu Dora Golovaty, com que se casou, num dos primeiros matrimônios entre sefaradim e ashkenazim de que se tem notícia no Brasil.

A maioria dos imigrantes iniciou a vida no Brasil trabalhando como vendedor ambulante, prestamista e comerciante, como Elias Mizrahi, Carlos Nigri, Jacques Sarraf, Alberto Srur, Gabriel Politi, Jacob Simantob, Isaac Sayeg, Moisés Cohen, Meyer J. Nigri, Yontob Zeitune, Tufic Simantob, Leon Haim Fuerte, Elias Peres, Natan Peres e Moisés Chatah dentre outros. Muitos depois abriram lojas ou fábricas.

O principal problema da Mooca eram as constantes enchentes do Rio Tamanduateí, lembra Julia Sayeg Peres. "Em poucos minutos de chuva a água subia e os clientes do consultório tinham que ser retirados em uma jamanta", recorda Abeid Adura, que nasceu e sempre viveu no bairro. Ele foi um dos principais médicos da comunidade com o seu consultório na Rua Odorico Mendes. O médico lembra que era sempre convidado para participar das festas e eventos da comunidade. "Frequentemente eu era chamado para aconselhar as decisões de família. As pessoas eram muito boas, honestas e amigas" que lembra que muitos comerciantes judeus substituíram os portugueses, já instalados no bairro, "por sua maneira de negociar e facilitar o pagamento".

Marco Nigri começou a trabalhar com 12 anos. Sua família tinha uma tecelagem de seda que funcionou até 1945 e negócios imobiliários com Carlos Hadid. Carlos também foi sócio de Tuffy Kalili, que trabalhava com os irmãos no comércio de tecidos.
Após estabelecer-se no Brasil, os imigrantes mantiveram estreitos contatos com os familiares nos países de origem; muitos tentaram trazer para cá seus parentes, outros voltaram, seja para casar, seja pelas dificuldades iniciais no país.

"Era costume os moços voltarem à terra natal ou viajarem para o Rio de Janeiro os rapazes de São Paulo, e para São Paulo os do Rio para casar" conta Carolina Memran. Ela casou-se com um rapaz de São Paulo que foi ao Rio; eles se conheceram em um baile organizado pela colônia. Conforme a tradição, casaram-se em casa, fez-se o adush e saíram em quatro carros para dar umas voltas até que as mesas fossem arrumadas para a festa.
O casamento era sempre um grande evento. A festa durava sete dias e sete noites, realizada em casa, tendo antes o ritual do mikve, o adush, o da exposição do enxoval e o da prova da virgindade.

Faride Sayeg Cohen casou-se na então recém inaugurada sinagoga da Rua Odorico Mendes. "Serviam doces, cantavam, brincavam e eu ficava envergonhada", lembra Faride. A festa durou sete dias e sete noites para a família e todos vinham para ajudar nos preparativos. Ela teve oito filhos e uma filha. Já na cerimônia de brit milá a criança era vestida com uma camisola e o próprio mohel vinha dar o banho na criança por três dias até a alta.

Esther Dana Kalili conta que em sua casa respeitavam o Shabat e as festas judaicas. Seu casamento, conforme a tradição foi feito em casa.

O casamento era um ritual central na vida dos imigrantes, celebrado e festejado por toda a comunidade. A preservação da tradição judaica levou à organização de uma comunidade, com todas as instituições, e tendo como centro a Sinagoga. A fundação da primeira Sinagoga da Mooca foi o pilar em torno do qual se organizou uma autêntica kehilá, possibilitando a transmissão para os filhos e netos de uma herança milenar.

 

 

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